Pré-candidato ao Senado, Wesley Demes é réu por fraude em concurso
Wesley Demes (Podemos) foi identificado como referência de um grupo de fraude no concurso do Corpo de Bombeiros de 2014
Wesley Jackson Demes de Miranda é um dos três réus em uma ação que tramita na Vara de Delitos de Organização Criminosa da comarca de Teresina. Ele responde ao lado de Ronnald Marcílio da Silva Penha e Valdine Henrique Mota. Os três são acusados de fraude a certame de interesse público, ou seja, fraude em concurso público do estado do Piauí, crime previsto no artigo 311-A do Código Penal, e de supostamente integrar organização criminosa, nos termos da Lei nº 12.850/2013. A denúncia também imputa aos três violação de sigilo funcional.
Como o nome dele surgiu na investigação
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O caso tem origem na fraude do concurso público para soldado do Corpo de Bombeiros Militar do Piauí. A prova foi aplicada em 13 de abril de 2014. A apuração ficou a cargo do Grupo de Repressão ao Crime Organizado (Greco), que usou comparação estatística dos gabaritos preenchidos pelos candidatos. A prova tinha 60 questões com cinco alternativas cada. Técnicos da Secretaria de Segurança Pública identificaram grupos de candidatos com 90% a 100% de coincidência entre acertos e erros. Os investigadores classificaram essa repetição como estatisticamente impossível de ocorrer por acaso.
O primeiro grupo identificado reuniu 48 pessoas com esse padrão de coincidência, a partir dos gabaritos de três outros candidatos. A investigação também apurou dois nomes que haviam surgido de denúncia anônima após a Operação Veritas. Um deles era Wesley Demes. O Núcleo de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública repetiu então a análise, usando o gabarito de Wesley Demes como parâmetro. O resultado apontou um segundo grupo de fraude, com 12 candidatos, incluindo o próprio Wesley Demes. A partir desse achado, a investigação passou a cruzar dados telefônicos e de geolocalização desse grupo. O objetivo era buscar contato entre os suspeitos e integrantes da organização criminosa nos dias anteriores e no dia da prova.
A tentativa de acordo que não avançou
Em 2023, o Ministério Público do Piauí tentou negociar Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com os três réus. A medida era cabível porque a pena mínima do crime de fraude a certame é inferior a quatro anos e o caso não envolve violência. A tratativa ficou a cargo da 27ª Promotoria de Justiça de Teresina. Ronnald e Valdine recusaram formalmente a proposta.
Já Wesley Demes não pôde ser localizado. O Ministério Público tentou notificá-lo administrativamente.
Depois, buscou contato com o advogado dele por WhatsApp. Nenhuma das tentativas teve sucesso. Diante disso, o processo seguiu para instrução em relação aos três réus, sem acordo.
Onde o processo está agora
Uma audiência de instrução foi realizada em 3 de outubro de 2025. Os documentos mais recentes do processo, de fevereiro de 2026, tratam de diligências de intimação de Wesley Demes, inclusive por WhatsApp. Até a data de exportação deste processo, não constava sentença de mérito em relação a ele.
O caso de Wesley Demes integra um conjunto maior de investigações sobre fraudes em concursos públicos no Piauí. Segundo os autos, o mesmo grupo também fraudou o concurso de 2012 para agente da Polícia Civil e um concurso para servidores do Tribunal de Justiça do Estado.
O que diz Wesley Demes
Procurado, Wesley Demes respondeu por meio de nota. Ele afirma que sequer foi aprovado dentro das vagas do concurso do Corpo de Bombeiros, e que permaneceu apenas na lista de classificados. Sustenta que a imputação contra ele nunca foi a de integrar organização criminosa, mas apenas a alegação de que teria sido beneficiado por um gabarito, o que nega. Segundo ele, os cruzamentos de dados feitos pela investigação não demonstraram qualquer ligação sua com a organização apurada ou com os candidatos apontados como beneficiados. Ele diz que o processo está hoje em fase final, com todas as provas já produzidas.
Wesley Demes afirma ainda que presidiu a Comissão de Aprovados e Classificados do concurso. O movimento obteve liminar no Tribunal de Justiça do Piauí garantindo a mais de cem classificados o direito à convocação para o curso de formação. O Estado levou essa decisão ao Supremo Tribunal Federal.
Ele relata também mais de sete anos de atuação na Associação dos Bombeiros e Policiais Militares do Piauí, com participação em manifestações da categoria. Atribui as acusações contra ele à sua exposição como opositor político dos governos do PT no Piauí desde 2005. Wesley Demes é hoje filiado ao Podemos. Ele se apresenta como pré-candidato ao Senado Federal pelo partido.
O portal AZ ressalta que mantém o espaço aberto ao contraditório para os citados se manifestarem sobre os fatos aqui mencionados.
Fonte: Portal AZ