Voto remoto amplia poder da Câmara e esvazia debates
Modelo herdado da pandemia acelera votações, mas levanta críticas sobre transparência
Criado durante a pandemia de Covid-19 para garantir o funcionamento da Câmara dos Deputados em meio às restrições sanitárias, o sistema de votação remota se consolidou como uma das principais ferramentas de articulação política da Casa. Embora seja apontado como responsável por aumentar a produtividade legislativa, o modelo também passou a ser alvo de críticas por favorecer votações de temas sensíveis em plenários esvaziados.
Atualmente, deputados podem registrar presença presencialmente em Brasília e, em seguida, votar por meio do aplicativo Infoleg, sem a necessidade de permanecer no plenário durante as discussões. Na prática, a exigência de participação física ficou restrita a parte das sessões, enquanto a deliberação remota se tornou rotina no funcionamento da Câmara.
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Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a mudança alterou a dinâmica do processo legislativo. Para eles, a possibilidade de votar à distância reduziu a pressão política gerada pela presença dos parlamentares em plenário e encurtou debates sobre matérias de grande repercussão.
Projetos recentes considerados controversos foram aprovados em sessões com baixa participação presencial. Entre eles estão propostas que ampliam benefícios a partidos políticos, aumentam a imunidade tributária de igrejas e flexibilizam regras relacionadas à proteção ambiental.
A cientista política Lara Mesquita, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que o impacto do sistema vai além da redução dos debates. Segundo ela, o mecanismo altera a própria lógica de formação de quórum, tradicionalmente usada como instrumento de negociação e disputa política dentro do Legislativo.
Na avaliação da pesquisadora, o modelo permite que deputados garantam o funcionamento das sessões sem necessariamente acompanhar as discussões ou participar ativamente das negociações que antecedem as votações.
O cientista político Murilo Medeiros, por sua vez, reconhece que o sistema trouxe ganhos de eficiência ao acelerar a tramitação de propostas. Para ele, contudo, a modernização teve como efeito colateral o enfraquecimento do debate parlamentar e a transferência de parte das articulações políticas para ambientes menos visíveis ao público.
Criado em março de 2020 durante a presidência de Rodrigo Maia na Câmara, o Sistema de Deliberação Remota foi concebido como medida emergencial diante da pandemia. Encerrada a crise sanitária, a ferramenta foi mantida e adaptada, tornando-se parte permanente da rotina legislativa.
A flexibilização das regras ganhou força durante a gestão de Arthur Lira e segue sendo utilizada sob a presidência de Hugo Motta. Segundo parlamentares, o modelo deve continuar em vigor durante o segundo semestre de 2026, período em que as atividades legislativas costumam ser impactadas pela campanha eleitoral.
Fonte: Com informações do G1