Jumentos enviados do PI para abate quase triplicam em um ano
Demanda chinesa pela pele e baixa valorização do animal impulsionam embarques para a Bahia
O Piauí enviou cerca de 3,5 mil jumentos para abate na Bahia entre janeiro e agosto de 2026, segundo a Agência de Defesa Agropecuária do Estado (Adapi). O volume representa quase o triplo dos 1.241 animais enviados durante todo o ano de 2025. Pesquisadores apontam a desvalorização do jumento no campo e o aumento da demanda chinesa pela pele como fatores que ajudam a explicar o crescimento.
A maior concentração de animais destinados ao abate está em Marcos Parente, no Sul do Piauí. Segundo a Adapi, os jumentos são comprados de diferentes proprietários e reunidos em uma propriedade rural até o momento do embarque. O órgão informou ainda que não existem, no estado, propriedades voltadas especificamente à criação de jumentos para abate.
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Apesar do aumento dos envios, a Adapi não estima quantos animais ainda poderão ser encaminhados para frigoríficos até o fim do ano.
Mecanização reduziu valor do animal
O professor universitário e doutor em ciência animal Raniel Lustosa afirma que o jumento perdeu espaço nas atividades rurais com a mecanização do campo. Antes utilizado principalmente para transporte e trabalhos agrícolas, o animal passou a ter menor valor econômico em diversas regiões.
Segundo o pesquisador, a baixa utilização comercial e a reprodução sem controle contribuíram para que os animais passassem a ser negociados por valores reduzidos.
A pós-doutoranda do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e consultora de campanha no Brasil da organização britânica The Donkey Sanctuary, Patrícia Tatemoto, avalia que esse cenário favoreceu uma atividade de caráter extrativista.
O ciclo reprodutivo também dificulta a formação de uma criação voltada exclusivamente ao abate. A gestação dura cerca de 12 meses e o animal precisa de aproximadamente 18 meses após o nascimento para atingir uma idade considerada adequada. O intervalo entre a reprodução e o abate pode chegar, portanto, a cerca de dois anos e meio.
Pele é principal interesse econômico
A valorização da pele no mercado internacional é apontada pelos pesquisadores como um dos principais fatores por trás do aumento da procura pelos animais.
A China, segundo Raniel Lustosa, reduziu significativamente sua população de jumentos nas últimas décadas e passou a buscar a matéria-prima em outros países. A pele é utilizada na produção do ejiao, produto tradicional da medicina chinesa feito a partir do colágeno.
No Brasil, as peles são tratadas e conservadas nos frigoríficos antes de serem destinadas à exportação. A carne também pode ser comercializada como subproduto do abate.
Patrícia Tatemoto explica que a demanda inicialmente esteve associada a características específicas da pelagem, mas a redução das populações de jumentos ampliou o interesse para diferentes animais.
Animal comprado por até R$ 150 pode gerar pele de até R$ 4 mil
A diferença de valores ao longo da cadeia chama atenção. De acordo com Raniel Lustosa, os jumentos podem ser adquiridos por R$ 50 a R$ 150, enquanto a pele chega a ser vendida pelo frigorífico por aproximadamente R$ 1 mil a R$ 1,5 mil.
No mercado oriental, após etapas de processamento e dependendo do tipo de produto final, o valor pode alcançar R$ 2 mil a R$ 4 mil.
Para o pesquisador, uma alternativa seria estruturar uma cadeia produtiva regularizada, com produtores cadastrados, associações e cooperativas, em vez da retirada de animais de forma aleatória.
A proposta seria estabelecer acordos entre investidores, frigoríficos e produtores para criar os jumentos de maneira controlada e atender à demanda do mercado internacional.
Transporte até a Bahia supera 1,3 mil quilômetros
Os animais são levados em caminhões para frigoríficos na Bahia. A partir de Marcos Parente, a viagem chega a 1.141 quilômetros até Amargosa e a 1.314 quilômetros até Itapetinga.
O transporte precisa seguir normas de bem-estar animal. Entre as exigências estão o respeito à capacidade dos veículos e a realização de paradas para alimentação e hidratação em viagens com duração superior a 12 horas. Também é proibido utilizar instrumentos de choque durante o embarque.
Número de guias de transporte também aumentou
O crescimento dos embarques aparece ainda na quantidade de Guias de Trânsito Animal (GTAs) emitidas no estado.
Em 2026, mais de 70 guias foram emitidas para o transporte de jumentos. Foram 26 em 2025 e apenas oito em 2024, quando 303 animais foram enviados para abate.
A Adapi acompanha o transporte até a saída do Piauí. A fiscalização ocorre em Cristalândia, no Sul do estado, onde funciona um posto fixo de fiscalização agropecuária.
Depois da divisa, a conferência da quantidade de animais que chega aos frigoríficos fica sob responsabilidade dos fiscais federais que acompanham o abate nos estabelecimentos de destino.
Segundo Daniela Rabelo, o compartilhamento de informações entre a Adapi e os órgãos responsáveis pela fiscalização na Bahia ocorre somente quando solicitado.
Fonte: Com informações do G1