Juros altos limitam efeito de programas de renegociação de dívidas

Economista diz que alívio obtido pelas famílias pode ser temporário enquanto crédito continuar caro

Por Redação Portal AZ,

A alta dos juros tem reduzido o efeito de programas de renegociação de dívidas e dificultado uma melhora duradoura da situação financeira das famílias. A avaliação é do economista Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), diante de novos recordes de endividamento e inadimplência registrados pelo Banco Central.

Foto: Especialistas indicamcomo cuidar de finanças em cenário de juros altos
Renegociação de dívidas pode aliviar orçamento, mas juros elevados mantêm pressão sobre as famílias.

Segundo o BC, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas chegou a 28,9% em junho, maior nível da série histórica iniciada em 2011. Em julho, a inadimplência da carteira de crédito destinada às famílias também atingiu o maior patamar da série, com 5,8%.

Para Gesner, programas como o Desenrola conseguem reduzir a pressão financeira no curto prazo, mas não eliminam as condições que levam os consumidores a contrair novas dívidas. Com o crédito caro, a renegociação pode apenas adiar o problema.

“Você dá anistia, só que logo depois, com um juro tão elevado, logo depois a pessoa está novamente numa situação de inadimplência”, afirmou.

O cenário chama atenção porque ocorre em meio a um mercado de trabalho ainda aquecido, com desemprego baixo e aumento real da renda média. Na avaliação do economista, o avanço desses indicadores não tem sido suficiente para compensar o peso das dívidas acumuladas.

Crédito caro pesa sobre orçamento das famílias

A pressão é maior nas modalidades de crédito com juros elevados. Dados apresentados pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, mostram que o crédito pessoal não consignado tinha taxa média de 149,5% ao ano em junho, enquanto operações com algum tipo de garantia cobravam, em média, 27,5%.

O volume desse tipo de empréstimo também cresceu nos últimos anos. Desde março de 2020, o crédito pessoal não consignado avançou 188%, chegando a R$ 397,2 bilhões.

Galípolo também chamou atenção para o aumento do endividamento apesar da melhora na renda e no emprego. Segundo ele, o BC prepara medidas para reduzir riscos principalmente nas modalidades de crédito mais caras e sem garantia.

Para Gesner, a combinação entre juros elevados e novas contratações de crédito dificulta a recuperação financeira das famílias. Mesmo quando uma dívida é renegociada em condições melhores, o consumidor continua exposto a custos elevados caso precise recorrer novamente ao sistema financeiro.

Renegociação reduz pressão, mas não elimina o problema

O Desenrola foi criado justamente para facilitar a reorganização de dívidas, com descontos, redução de juros e ampliação de prazos em determinadas operações. Neste ano, o governo lançou novas modalidades voltadas a diferentes perfis de consumidores.

Uma delas atende famílias com renda de até cinco salários mínimos e prevê juros de até 1,99% ao mês para a renegociação de dívidas. Outra modalidade, voltada a trabalhadores informais, permite substituir determinadas operações de crédito pessoal por contratos com taxa máxima de 1,99% ao mês.

Para o economista, porém, a sucessão de programas de renegociação evidencia que o problema não está apenas nas dívidas antigas. O custo do dinheiro e as condições de acesso ao crédito também influenciam a capacidade de pagamento das famílias.

“Essa situação na qual você tem sucessivos programas de anistia, sucessivos desenrolas e continua haver um problema de endividamento, essa situação reflete o desequilíbrio da política macroeconômica”, afirmou.

Debate envolve contas públicas e política monetária

Na avaliação de Gesner, parte da explicação para o nível elevado dos juros está na relação entre política fiscal e política monetária. Segundo ele, uma política fiscal expansionista pode aumentar a pressão sobre a demanda e exigir uma atuação mais restritiva do Banco Central para conter a inflação.

A ata da reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom) também destacou a importância da coordenação entre as políticas fiscal e monetária. O colegiado afirmou que um ambiente fiscal mais equilibrado pode contribuir para reduzir o prêmio de risco e facilitar a convergência da inflação para a meta.

Em agosto, o Copom reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano, mas manteve a indicação de que a política monetária precisa continuar restritiva diante das expectativas de inflação acima da meta.

Para Gesner, uma redução mais consistente do custo do crédito dependeria de um ajuste das contas públicas que permita diminuir a pressão sobre os juros.

“Precisará um ajuste fiscal para reequilibrar os papéis da política fiscal e monetária, permitindo uma redução consistente da taxa de juros e, consequentemente, diminuindo o custo da dívida para o próprio Estado, para as famílias e para as empresas”, afirmou.

Fonte: SBT News

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